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Sobre ser gorda e achar que moda e beleza não são assuntos para você

por Gabi Bortolussi
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Senta que lá vem história! Bom, desde que eu me entendo por gente, sempre estive acima do peso considerado ideal pela sociedade: eu fui uma criança gorda, uma adolescente gorda e hoje sou uma adulta gorda. Nesse espaço de tempo eu tentei (juro que tentei com todas as minhas forças) emagrecer para me adequar ao que era esperado de mim. Dietas malucas, dias sem comer, remédios controlados (muitos), horas e horas de academia, mas no final das contas eu continuava sendo gorda. Pra não ser injusta, durante uma época da minha vida eu consegui emagrecer, vai. Nada perto do que a sociedade considera magra, mas eu tava até satisfeita. Mas…. engordei de novo. Parece só mais uma história sofrida, né? Mas não é, eu tô contando isso com um propósito. Aguenta firme que você vai entender.   

Quando as minhas amigas começaram a se interessar por maquiagem, moda e coisas desse tipo, eu não me sentia no direito de ter esses mesmos interesses, afinal, eu era a menina gorda e as meninas gordas eram necessariamente feias, independente do que elas fizessem. Para contornar a situação, eu dizia para mim mesma que aquilo não era pra mim, que era fútil e que eu não me importava em saber sobre moda ou em saber me maquiar. O grande problema aí é que eu estava mentindo pra mim mesma: eu me importava muito e eu queria muito saber o que as minhas amigas sabiam e queria muito poder conversar com elas sobre qual era a cor da estação ou qual tipo de maquiagem era mais adequada pra determinado tipo de pele. E o que aconteceu? Eu cresci extremamente frustrada por não poder me interessar por algo que eu gostava. (Isso provavelmente vai ser uma surpresa até pras minhas amigas mais próximas, já que elas sempre acharam que eu realmente não gostava desses assuntos).

Foi só agora, com 27 anos, que eu consegui entender de fato que eu posso sim gostar, usar e fazer o que eu quiser, que eu não devo me importar com o que a sociedade pensa a meu respeito e que eu sou linda independente do meu peso. 27 fucking anos foi o tempo que eu demorei pra descobrir isso: imagina quanta frustração, dor e angústia que eu senti durante esse tempo. Pois é, agora pensa que, onde eu já estive um dia, estão milhares (ou milhões, não sei) de pessoas. Se você tem um mínimo de sensibilidade e humanidade, deve estar se perguntando agora o que podemos fazer pra mudar essa realidade e ajudar essas pessoas a não se sentirem como eu me senti durante grande parte da minha vida. Não vou mentir e dizer que existe uma fórmula mágica e que tudo vai mudar de um dia pro outro, porque isso não é verdade. Existe toda uma construção social que faz com isso seja um processo lento e doloroso. Mas, com a autoridade de quem viveu e vive isso até hoje, eu tenho alguns conselhos – direcionados – para que cada um mude um pouquinho o seu mundo (influenciando as pessoas ao seu redor), para que assim consigamos uma mudança grande e realmente significativa.

Aos gordos que AINDA não se aceitaram

Sim, eu vou usar a palavra gordo porque ela não é uma ofensa – assim como alto, magro, baixo, entre outros – e você precisa entender isso pra começar a sua transformação.

Não há absolutamente nada de errado em não estar dentro do padrão exigido pela sociedade (padrão absurdo, que vai ser assunto de outro post). Você é linda do jeito que você é, independente do quanto você pesa. Eu sei que você deve estar rindo e pensando que é bem fácil falar, mas que as pessoas te lembram o tempo todo o quanto seria melhor se fosse magra. Calma, eu ainda vou dar conselhos pra essas pessoas.

Não há nada de errado em comprar aquela roupa da moda e usar (por mais que a mídia diga que aquilo não é pra pessoa gorda), não há nada demais em ser fashionista e arriscar nos looks, não há nada demais em usar a maquiagem que você quiser. Você deve ser feliz, e pronto. Uma dica que me ajudou bastante durante esse processo de redescoberta e aceitação foi: imagine que não tem ninguém te vendo… você está feliz e se sente bem com a roupa que você está? Se a resposta for sim, vá e arrase aonde quer que seja, pois é apenas isso o que importa.

Pra não dizer que estou romantizando as coisas, te aviso logo que esse processo não vai ser fácil! Vai ser um exercício de persistência, de nadar contra a corrente. Mas eu juro que, no final das contas, vai ter valido todo o esforço e as lágrimas derramadas e você vai poder ser feliz de fato sem se importar com que os outros pensam a seu respeito.

Vou colocar aqui as fotos de duas mulheres incríveis e super estilosas, pra vocês se sentirem inspiradas e muito bem representadas!

Are you guys tired of my Paris photos yet? Oh well/Hope not ????????Shot by @rachelrebibo for @eloquii????????

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Aos magros que insistem em se meter na vida dos gordos (ou dos outros)

Apenas parem! Vocês absolutamente não têm o direito de julgar, opinar (a não ser que a sua opinião seja pedida) ou “se preocupar” com os gordos. O “se preocupar” virou uma forma bastante conveniente de mostrar o preconceito sem de fato ser ofensivo:

“O problema não é você ser gorda, o problema é a sua saúde.”

Essa é uma das frase mais absurda dos últimos tempos, sabe por que? Porque você não tem como saber se um gordo é ou não saudável (e mesmo que ele não seja, isso não é um problema seu) para “se preocupar” dessa forma. E outra, não vejo você se “preocupando” com a saúde do magrinho que só come porcaria. Então, pare!

Sabe outra frase que você deve esquecer que existe também?

“Você tem o rosto tão bonito, se emagrecesse ia ficar incrível”  

Essa eu nem vou me dar ao trabalho de explicar o por quê, ok? Deixa a gorda ser feliz! Eu tenho certeza que você tem mais com o que se preocupar na vida. Ser gorda não é nenhum problema.

Aos gordos que já se aceitaram

Por favor, compartilhem suas histórias! Acredite que isso faz toda a diferença nesse processo de aceitação do outro. Entender que alguém já passou por isso e conseguiu é um incentivo incrível pra quem ainda está no meio do caminho.

Digo isso porque durante o meu processo, eu vi muitos e muitos blogs e artigos de mulheres plus size incríveis, Ju Romano, Tanesha AwasthiGabi Fresh, Ashley GrahamNicolette Mason, Alexandra GurgelNadia Aboulhosn e mais vários outros que me ajudaram a me amar e me aceitar do jeito que eu sou. Representatividade importa sim, e muito (vou colocar umas fotos pra inspirar vocês)!

Às pessoas que são indiferentes a essa situação

Você também é responsável pelos padrões impostos pela sociedade e por todo mal estar e sofrimento que ele causa. Logo, você também é responsável por mudar essa realidade e ajudar nesse processo de desconstrução.

Que tal policiar seus amigos quando eles praticam algum tipo de gordofobia? Que tal elogiar aquele seu amigo gordo que é super tímido e inseguro? São pequenas atitudes que podem mudar o mundo de alguém. Eu sei que você pode fazer isso, então comece hoje mesmo!

Aos pais das novas gerações

Ensinem seus filhos a não julgarem o outro. E, acima de tudo, ensinem seus filhos serem felizes! A sociedade que a gente quer pro futuro já está sendo construída nesse exato momento e você tem um papel de extrema importância no que diz respeito à educação e delimitação de princípios dos seus filhos.

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Uma observação pro final e com todo o meu carinho: gordos, por mais que as outras pessoas não tenham que se intrometer na sua saúde, você é responsável por cuidar dela e se manter saudável. Então, cuide-se sempre: coma bem, se exercite e seja feliz!

E sobre o final da minha história que começou triste lá em cima: ela acaba bem feliz! Agora eu sou uma gorda que ama moda e dicas de beleza, mas, que acima de tudo, se ama! Eu me permiti, e agora eu sou extremamente feliz com isso. Experimente se permitir também! 😉