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Não há nada de errado em não querer ser mãe

por Gabi Bortolussi
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Tá aí uma coisa que a gente tem até medo de falar sobre (mas não deveria), porque sabe que vai ser julgada e condenada. O fato de uma mulher não querer ser mãe, ainda hoje, é tratado como um tabu – a sociedade, por mais estranho que pareça, ainda se acha no direito de decidir sobre uma coisa tão íntima e pessoal da vida de uma mulher. Não bastando a questão de se acharem no direito de opiniar, à medida que vamos ficando mais velhas, começa uma cobrança alucinada para que a gente tenha filhos. Cara, na boa, isso é muito chato.

Ser mãe, assim como outras diversas imposições sociais às mulheres, é uma escolha individual e que diz respeito apenas àquela pessoa. A essa altura, você que é um dos defensores de que “toda mulher nasceu pra ser mãe” deve estar pensando que isso é uma decisão conjunta, da mulher e do parceiro dela (pelo menos), correto? Não, errado! É uma decisão individual sim e, caso o parceiro não aceite essa decisão, ele estará desrespeitando um direito daquela mulher (vale a leitura sobre relacionamentos abusivos). Da mesma forma que aquela mulher tem o direito de não querer ser mãe, o seu parceiro tem todo o direito de não continuar com ela caso queira ter filhos. Viu? Isso se chama respeito mútuo.

Vamos a um exemplo comparativo de como a sociedade tem lidado com a questão de uma mulher não querer ser mãe. Imagine que um amigo chegue até você e te ofereça um pedaço de chocolate. Imagine agora que você, educadamente, rejeite o chocolate que ele está te oferecendo. Qual seria a atitude mais provável do seu amigo? Respeitar a sua vontade e pronto, acabou o assunto do chocolate. Agora vamos substituir, esdruxulamente, o chocolate pela vontade de ser mãe. Imagine que um amigo chegue até você e pergunte se você quer ser mãe e você, educadamente, diga que não. Qual é a reação mais comum nesse caso? Uma enxurrada de perguntas, comentários e julgamentos:

  • Por que você não quer ser mãe?
  • Quando você for mais velha vai desejar ter tido filhos!
  • Nenhum homem vai querer ficar com uma mulher que não quer ter filhos!
  • Esse feminismo está acabando com o mundo. (Oi?)
  • Não querer ser mãe é extramente egoísta, sabia?
  • Calma, isso é só uma fase. Logo logo vai bater a vontade de ser mãe.
  • Você não vai se sentir realmente completa enquanto não tiver filhos.
  • Quem vai cuidar de você quando estiver velha? (Ahm?)
  • Quando você mudar de ideia a respeito disso, pode ser tarde demais, viu?
  • Você não quer ser mãe porque não gosta de crianças?

Seria tão mais maravilhoso se o seu amigo agisse da mesma forma como ele agiu em relação ao chocolate, né? Respeitando a sua vontade e a sua escolha. E é por isso que temos que lutar. Temos que lutar pelo direito de poder fazer nossas próprias escolhas sem que as pessoas achem natural se intrometerem ou nos julgarem por isso. Temos que lutar porque não querer ser mãe é um direito que ninguém pode tirar da gente.

Se você é uma mulher que não quer ter filhos, entenda duas coisas: não há absolutamente nada de errado com você e você não está sozinha. Estamos entrando em uma época magnífica, onde a sororidade* está cada vez mais presente na nossa cultura. Se agarre a isso a entenda que ninguém pode tirar seu direitos legítimos e que existem outras mulheres te apoiando neste processo.

so·ro·ri·da·de
(larim soror, -oris, irmã + -dade)
substantivo feminino
1. Relação de união, de afeição ou de amizade entre mulheres, semelhante à que idealmente haveria entre irmãs.
2. União de mulheres com o mesmo fim, geralmente de cariz feminista.

Já você que adora julgar quando uma mulher diz não querer ser mãe, apenas pare! Pare porque isso não é da sua conta. Pare porque os impactos de uma gravidez (sejam eles físicos ou emocionais) não vão acontecer com você. Pare porque o mundo tem gente até demais e a gente não corre o risco (tão cedo) de ser uma raça extinta. Pare porque sim, ok?

Você pode estar imaginando agora que eu sou uma mulher que odeia crianças e que decididamente não quer ter filhos. Desculpe, você está enganado: eu não preciso sentir a dor do outro para ser solidária a ela. Durante algum tempo eu tive sim uma grande dúvida sobre querer ou não querer ser mãe, mas hoje eu já consegui me decidir a respeito disso (por mim mesma e sem ceder à pressão de ninguém). Eu quero ser mãe, porque sim! Da mesma forma que uma outra mulher não quer ser mãe, porque não! Entende? Isso não me parece muito complicado.

Evoluimos tanto a cada dia em tantas coisas e regredimos tanto em outras… Que tal aceitar que a mulher tem poder sobre o seu corpo e que não há nada que você, nem ninguém, possa fazer a respeito? Que tal ter um pouco de empatia e se colocar no lugar de cada mulher que sente violada, cansada e chateada todas as vezes que precisa justificar o fato de não querer ser mãe? Sério, eu sei que a gente consegue ser melhor que isso! Pra quê cuidar da vida do outro se a gente já tem tanto com o que se preocupar?

Sejamos mais alento e menos julgamento! <3